O sabichonismo é uma doença insidiosa que tem entre seus sintomas a tara pelo pé da letra e a compulsão megalomaníaca de corrigir geração após geração de falantes, declarando a história da língua um imenso erro. Ler é o melhor remédio.

Português sem caretice e sem vale-tudo
O sabichonismo é uma doença insidiosa que tem entre seus sintomas a tara pelo pé da letra e a compulsão megalomaníaca de corrigir geração após geração de falantes, declarando a história da língua um imenso erro. Ler é o melhor remédio.

Imagine então sem os bravos professores de português! Feliz dia a todos.


Sabe aquela velha lição de que palavras como “saudade” e “felicidade” não têm plural? Convém esquecer.
A condenação a flexões consagradas como “saudades” e “felicidades” se baseia no argumento de que essas palavras exprimem “noções abstratas” e, portanto, não são numeráveis.
Trata-se de uma regra furada. Contrariada por séculos de uso, foi questionada até por um bastião do conservadorismo gramatical como Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998), que observou estar ocorrendo com “saudade” algo semelhante ao que se dera com parabém e pêsame, palavras cujo singular caiu em desuso.
A “regra” de não levar para o plural substantivos que exprimem “noções abstratas” é inaplicável de saída. Como a maioria das palavras, tais substantivos tendem a um certo esparramamento semântico sobre a superfície das coisas. Não existe um dique capaz de separar abstração e concretude com tanta segurança.
“Felicidades” pode querer dizer “votos de felicidade”, por exemplo. E não é difícil perceber que saudades podem ser enumeradas: de você, das crianças, dos nossos passeios dominicais, da infância, da comida da vovó…
Essas e outras expansões do sentido nuclear das palavras são tão banais – e incontroláveis – que tendem a passar despercebidas.
Claro que ninguém está obrigado a usar “saudades” e “felicidades”. A fidelidade à forma singular (que não caiu em desuso como no caso de parabém) é uma opção legítima.
Mas que parar de corrigir os outros sem razão seria uma boa ideia, seria.
Chato. Custava demais o DNER (atual DNIT) contratar revisores? Mas um dia chegaremos lá.

– E a Norma, hein?
– O que é que tem?
– Você não soube? Anda mal falada.
– A Norma? Depois de velha? Mas ela é tão culta!
– Pois é. E com aquela pose toda, a mania de ditar regrinhas de bom comportamento, de corrigir todo mundo…
– Mas o que foi que aconteceu?
– Ora, o que aconteceu é que caiu a máscara da madame, né? Descobriram finalmente como ela é autoritária, elitista e preconceituosa. E pior, arbitrária, totalmente desconectada da realidade.
– Puxa, eu sempre achei a Norma tão correta…
– Correta demais, aí é que está. Era para desconfiar, acho que demorou. Parece que até aqueles amigos que ela se orgulhava de ter no ministério andam virando a cara para ela.
– Ah, coitada. Eu sinto pena.
– Pois eu acho ótimo. Nunca fiquei à vontade na presença da dona, sabia? Muitas vezes aconteceu de eu ter alguma coisa importante para falar e ficar com medo. Preferia nem abrir a boca.
– Isso é verdade, a Norma sempre foi difícil.
– Tá vendo? Nem você, que é meio puxa-saco, está disposto a defender a megera!
– Estou sim, defendo sim. E você? Fica aí esculachando mas até que está se expressando direitinho, do jeito que ela gosta.
– Eu?
– Você.
– Ah, você não viu nada, meu amigo. A gente vamos barbarizar!
1. “Analisando essa reforma ministerial, eu me pergunto porque a presidente, que tem fama de esquentada, não deu logo um soco na mesa.”
2. “Você pensa que está a salvo da crise só por que é funcionário público?”
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O uso equivocado de “porque” e “por que” nas frases acima (sim, eles deveriam trocar de lugar) se deve a uma das armadilhas mais traiçoeiras do português brasileiro.
Aprendemos na escola uma regrinha simples: “por que” é usado em construções interrogativas e “porque”, conjunção explicativa ou causal, em construções afirmativas.
Como regra geral, vale. O problema é achar que o ponto de interrogação liquida a questão: se existe, é “por que”; se não existe, “porque”. Não é bem assim – ou nem sempre é assim.
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A frase 1 não tem ponto de interrogação, mas é interrogativa. Interrogativa indireta é como a classificam. O macete aqui é fazer o teste da razão: usamos duas palavras separadas quando for possível substituir “por que” por “por que razão”: “…me pergunto por que (razão) a presidente não deu um soco na mesa”.
Repare que também se usa “por que” numa construção semelhante, mas não interrogativa: “Analisando a reforma ministerial, você entende por que (razão) os eleitores do governo se sentem traídos”.
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O exemplo 2 traz o problema oposto: temos uma interrogação clara, mas a oração introduzida pela conjunção “porque” não faz parte dela. O verbo que se interroga é “pensar”, enquanto “é funcionário público”, fato inquestionável, pertence a uma possível resposta que a frase antecipa:
– Por que você pensa que está a salvo da crise?
– Porque sou funcionário público.
É por isso que aquele teste da razão dá negativo aqui: “…só por que razão é funcionário público” não faz o menor sentido. Portanto, escrevemos “…só porque é funcionário público”.
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Para quem fala inglês, outro truque útil é traduzir por why e because. No exemplo 1 temos why, “por que”. No 2, because, “porque”. Simples assim.
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Estamos falando de uma armadilha bem brasileira. Em Portugal é diferente: simplificaram, usam “porque” tanto na pergunta quanto na resposta. Menos uma casca de banana. Nossa gramática bem que podia ir atrás, mas no momento isso não parece estar no horizonte.
Nome é destino? A literatura gosta de imaginar que sim. Com esse nome o Voldemort de Harry Potter só poderia ser vilão, e pela mesma razão a Clarissa de Erico Verissimo não teria como fugir ao figurino de ótima moça.
Claro que na vida real tudo se complica. A variedade do mundo inclui Simplícios enrolados, Salgados dulcíssimos, Bravos covardes, Magnos insignificantes, Belas feiosas etc. Sim, o nome pode até trazer um recado com sinal invertido. Mas nem sempre.
Cunha é uma velha palavra portuguesa (século 14) vinda do latim cuneus, “peça triangular de rachar madeira”. No vocabulário militar, nomeia há milênios uma formação de ataque, com as tropas desenhando um triângulo.
O Houaiss traz uma segunda acepção militar: “em estratégia, recurso pelo qual um exército logra introduzir componentes de sua tropa em território e/ou em meio a unidades particularmente vulneráveis do inimigo”.
Da guerra para a política, que é a guerra sem canhões: em Portugal, cunha tem ainda o sentido informal de “recomendação de pessoa influente”. Meter uma cunha é arranjar um pistolão. De modo figurado, encontramos aí a mesma ideia de forçar passagem, abrir caminho na marra.
O que isso prova? Ora, nada. Mesmo porque Celso, o gramático, é tão Cunha quanto Eduardo, o político. Mas brincar com palavras não paga imposto nem dá cadeia. Ainda.